San Romero de América: a beatificação do mártir de El Salvador

Foram mais de 300 mil pessoas nas ruas de São Salvador para celebrar a beatificação do Monsenhor Óscar Romero, uma figura que, para os salvadorenhos, e para milhões de latinoamericanos, já é um santo. Neste sábado (23/5), 35 anos depois do seu assassinato, o Vaticano o tornou beato, o primeiro passo para um posterior processo de canonização.

Multidão em São Salvador, para celebrar a beatificação de Óscar Romero. (foto: AFP)

Multidão em São Salvador celebra a beatificação do Monsenhor Óscar Romero. (foto: AFP)

San Romero de América, como é conhecido entre seus fiéis, foi tão importante foi para seu país e todo o continente que a cerimônia contou com a presença de representantes de quase todos os países latinos, incluindo alguns presidentes de diferentes linhas ideológicas – desde o bolivariano Rafael Correa, do Equador, até o mui conservador Juan Orlando Hernández, de Honduras, além, é claro, do próprio presidente Sánchez Cerén, de El Salvador.

Sua trágica história e as controvérsias a respeito de sua figura explicam um pouco esse apoio transversal, e também a importância de que seu reconhecimento por parte da Santa Sé aconteça justamente através de um papa latino, e é a partir de outro papa que se pode contar melhor essa história.

Em 1979, Monsenhor Óscar Romero era arcebispo de São Salvador e foi ao Vaticano pedir apoio para sua luta contra as miseráveis comunidades católicas vítimas de uma ditadura onde um general derrubava outro, e a violência de Estado era exercida não somente pelas forças armadas mas também por grupos paramilitares.

Camisetas de Óscar Romero são mais populares em El Salvador que as das bandas de rock e outros ícones pop. (Foto: AFP)

Camisetas de San Romero são mais procuradas em El Salvador que as de bandas de rock e de outros ícones pop. (foto: AFP)

Romero teve que insistir para ser ouvido por um recém assumido João Paulo II, que não queria recebê-lo. Quando finalmente chegou até o santo padre – e não por uma entrevista formal, mas após enfrentar pacientemente passar por uma fila – ele começou a contar seus relatos, e tentou entregar um enorme documento com fotos e testemunhos reais de massacres, torturas e desaparições.

Assombrado, em meio a tantas informações, o Papa teria reagido bruscamente levantando o dedo e apontando-o quase no rosto do arcebispo salvadorenho, dizendo-lhe “cuidado com os comunistas, um bom cristão não cria problemas para a autoridade”, ao que Romero respondeu dizendo: “sua santidade, eu sei que na Polônia existe um comunismo mais ortodoxo, mas na América Latina quem fala em doutrina social da Igreja e amparo aos necessitados também é chamado de comunista, e eu mesmo, por esse motivo”.

Óscar Romero não era comunista. Tanto que foi indicado para o cargo de arcebispo, em 1977, por sua postura supostamente conservadora. Uma vez no cargo, levou a Igreja a optar por uma postura em favor dos mais necessitados, o que no caso de El Salvador incluía assistir aos que sofriam pela miséria, tanto no campo quanto na capital, e aos que fugiram da perseguição da ditadura.

Já em seu primeiro ano, ele foi especialmente afetado pelo assassinato do padre Rutilio Grande, um de seus amigos mais próximos dentro da Igreja, conhecido no país como “o padre dos pobres”. Rutilio foi fuzilado por um esquadrão da morte quando se dirigia a uma zona rural, para celebrar uma missa. Nesse momento, em uma conversa com seu secretário pessoal, Monsenhor Jesús Delgado, Romero diz que “estamos acurralados entre duas forças, por um lado os meus amigos de direita, que não conseguem entender que precisam mudar sua postura para com os mais necessitados, e por outro os que querem ser novos amigos de esquerda, que esperam que eu puxe a corda para o seu lado, mas isso eu não posso fazer” – segundo relato do próprio Monsenhor Delgado.

Óscar Romero, em 1978, visitando uma pequena comunidade de camponeses, no interior de El Salvador.

Óscar Romero em 1978, visitando uma pequena comunidade de camponeses, no interior de El Salvador.

As pressões não intimidaram Romero, que continuou sua posição de apoio aos flagelados e aos opositores de esquerda, o que foi confundido pela direita como um apoio declarado à luta armada. Uma meia verdade: também segundo testemunho de Jesús Delgado: “Monsenhor Romero tentou se aproximar dos jovens que faziam a luta armada naquela época, viu neles a defesa dos mesmos ideais, de uma sociedade que soubesse dividir melhor suas riquezas, mas ao mesmo tempo tentou tirá-los da luta armada, tentou convencê-los, inutilmente, de que havia outras formas de se lutar pela justiça social, sem violência”.

Seu discurso em favor da não violência, em um país em plena guerra civil como El Salvador, levou Óscar Romero a ser comparado com Mahatma Gandhi e Martin Luther King, com algum exagero, já que o arcebispo compreendia a necessidade de desobediência civil no flagelo vivido pelos salvadorenhos, mas não a encorajava.

Através de suas tradicionais homilias, Romero tentava criar consciência entre os católicos sobre a necessidade de se fomentar a igualdade social no país, o que despertou a fúria daqueles que o indicaram ao cargo que ocupava. Segundo o Monsenhor Jesús Delgado: “os grupos católicos de direita se sentiam responsáveis pela nomeação dele ao cargo de arcebispo, e depois se sentiram no direito de tirá-lo de lá, chegaram ao pedir ao Vaticano, mas não era possível, então resolveram fazê-lo por outros meios”.

No dia 24 de março de 1980, enquanto se realizava uma homilia, numa igreja em São Salvador, o coração de Óscar Romero foi atingido por uma bala disparada por um franco-atirador do exército salvadorenho – segundo a Comissão da Verdade realizada pelo país, se trataria de Samayoa Acosta, um militar treinado na Escola das Américas, nos Estados Unidos, e cujo paradeiro é desconhecido.

San Romero de América, beato para o Vaticano, santo e herói para o povo de El Salvador. (Foto: AFP)

San Romero de América, beato para o Vaticano, santo e herói para o povo de El Salvador. (foto: AFP)

Não contente com a eliminação do sacerdote, a ditadura foi mais além. Durante o massivo velório de Romero, um esquadrão da morte entrou disparando e causou a morte de 42 fiéis, além de dezenas de feridos. O assassinato de Romero e o massacre cometido em seu velório são considerados o ponto inicial da Guerra Civil de El Salvador, deflagrada entre o Exército, apoiado pelos grupos paramilitares conhecidos como “esquadrões da morte”, e as forças de resistência de esquerda, especialmente o FMLN (Frente Farabundo Martí de Liberação Nacional, grupo ao que pertenceu o atual presidente do país, Salvador Sánchez Cerén), num conflito que duraria oficialmente até janeiro de 1992, com a assinatura do Acordo de Paz de Chapultepec – deixando mais de 30 mil assassinados, 9 mil desaparecidos e um milhão de exilados.

Além do franco-atirador Samayoa Acosta, autor do disparo, outras pessoas apontadas como responsáveis pelo assassinato de Óscar Romero, segundo a Comissão da Verdade, foram Roberto d´Aubuisson, líder político da direita salvadorenha e fundador do partido ARENA (Aliança Republicana Nacionalista, lá como cá, a legenda que sustentou a ditadura) e considerado o mandante do assassinato – faleceu por um câncer de garganta, em 1992, semanas depois de assinado o acordo que colocou fim à guerra civil – e Armando Garay, motorista que levou o franco-atirador até a igreja onde se celebrava a missa, e que hoje vive nos Estados Unidos. Nenhum dos dois respondeu pelo crime na Justiça.