Tévez pode decidir a Libertadores, e também as eleições argentinas

A volta de Carlos Tévez ao Boca Juniors. Um rumor que surgiu na imprensa esportiva argentina em janeiro, vilipendiada pelo noticiário político, enfocado na estranha morte do promotor Nisman, mas que ganhou força em março, e agora em abril parece ser definitiva.

A chegada ao Boca do centro-avante ítalo-argentino Daniel Osvaldo, amigo pessoal de Carlitos, foi um primeiro índicio sobre o possível retorno de Tévez a La Bombonera. (Foto: twitter oficial @danistone25)

A chegada ao Boca do centro-avante ítalo-argentino Daniel Osvaldo, amigo pessoal de Carlitos, foi um primeiro índicio sobre o possível retorno de Tévez a La Bombonera. (Foto: twitter oficial @danistone25)

Ao menos foi o que publicou o jornal italiano Corriere della Sera, nesta quinta-feira (16/04). Tévez não quis renovar seu contrato com a Juventus, que termina em junho, porque teria acertado seu retorno a La Bombonera para no segundo semestre de 2015. Após a Copa América, ele já estaria de volta ao clube de seus amores, como prometeu há dez anos atrás, antes de ir pro Corinthians.

O Boca vem arrasando na Libertadores. Esta semana, o clube xeneize confirmou a melhor campanha em fase de grupos da história do torneio (seis vitórias em seis jogos, e um saldo de gols de 17), o que lhe garante decidir em casa todas as eliminatórias que disputar daqui por diante.

A parada do torneio durante a Copa América poderia ser ainda mais beneficiosa para o clube, que poderia inscrever novos jogadores para as semifinais, que começam a ser disputadas no dia 22 de julho. E Carlitos Tévez seria um reforço decisivo para a conquista de um possível título.

Mas por trás da volta do craque pode haver mais que interesses esportivos.

Este 2015 será um ano crucial para a política argentina. As eleições de outubro marcarão o fim da dinastia dos Kirchner na Casa Rosada. A esquerda ainda não oficializou o candidato que representaria a continuidade do atual governo, embora tudo indique que seja o atual governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

A oposição já tem dois concorrentes confirmados. Um deles será o prefeito da capital argentina, Mauricio Macri – ué, mas a gente não estava falando de futebol? Sim, caro leitor, mas é exatamente aqui que nós voltamos ao Tévez, que quer voltar ao Boca.

Mauricio Macri costuma convidar amigos e até inimigos políticos para peladas descontraídas, onde ele sempre joga com a camiseta do Boca. (Foto: Prefeitura de Buenos Aires)

Mauricio Macri costuma convidar amigos e até inimigos políticos para peladas descontraídas, onde ele sempre joga com a camiseta do Boca. (Foto: Prefeitura de Buenos Aires)

Porque antes de ser prefeito de Buenos Aires, Macri foi presidente do Boca Juniors. O sucesso de sua gestão no clube – entre 1996 e 2007, os xeneizes conquistaram 14 títulos: sendo seis campeonatos nacionais, quatro Libertadores, duas Sulamericanas e duas Intercontinentais – catapultou sua carreira política, levando-o ao primeiro cargo municipal no mesmo ano em que deixou La Bombonera.

Desde então Macri também se consolidou como o melhor presidenciável da direita. Ter sido presidente do clube símbolo dos argentinos mais pobres, e com uma gestão colecionadora de troféus, o ajuda a ser menos rejeitado pelos setores populares que os seus correligionários. A figura de gestor bem sucedido causa efeito ainda maior nas outras camadas.

Planejou sua ascensão política com certo zelo, tanto que não competiu contra Cristina Kirchner em 2011, temendo que uma possível derrota, diante de uma presidenta que naquele então tinha excelentes níveis de popularidade, pudesse macular sua imagem de vitorioso.

Agora, diante de uma esquerda sem um sobrenome tão potente, Macri tentará seu salto definitivo à Casa Rosada. O Boca Juniors, presidido por seu testa de ferro Daniel Angelici, certamente será usado na campanha, com ou sem Tévez, mas é evidente que seu possível regresso não é qualquer elemento a mais nessa receita.

Tévez poderia ser um aliado decisivo para Macri nas eleições do próximo mês de outubro. (Foto: Prefeitura de Buenos Aires)

Tévez poderia ser um aliado decisivo para Macri nas eleições de outubro. (Foto: Prefeitura de Buenos Aires)

Carlitos é o futebolista mais querido da Argentina, mais que Messi, principalmente pela população das villas miserias, onde vale a identificação com quem saiu de uma delas – e Tévez veio do Fuerte Apache, considerada uma das mais violentas da capital, trazendo consigo as marcas que a vida costuma deixar aos que por lá vivem. Um público que Macri precisa que não somente não o rejeite, mas que também vote por ele.

Se o atacante volta e leva o Boca Juniors ao seu sétimo título da Libertadores, transformando o clube no maior vencedor da história do torneio – igualando o rival Independiente –, Macri terá o título e o ídolo ao seu dispor na campanha.

O aproveitamento político sobre o jogador é algo tão certo que, em março, quando a especulação era ainda menos intensas que agora, o próprio Tévez se sentiu obrigado a falar sobre o tema: “sou amigo do Macri, desde que ele foi presidente (do Boca), mas também do Scioli (provável candidato do kirchnerismo), com quem participei de projetos sociais no Fuerte Apache (a favela fica na Província de Buenos Aires, da qual Scioli é governador), e sobre as especulações, quero deixar claro que não pretendo participar de campanha ou ser instrumento político de ninguém”.

O que não significa que sua imagem não pode ser usada, e tampouco precisa ser em caráter formal, mas ele tem razão em dizer que tudo, por enquanto, não passa de um conjunto de especulações. Até porque, o Boca Juniors também precisa confirmar sua transferência e chegar às semifinais da Libertadores sem ele para permitir esse cenário – e, para isso, terá que superar nas oitavas o eterno arquirrival River Plate.

A torcida sonha com as bolas na rede, e a direita argentina com os votos na urna. (Foto: AFP)

A torcida sonha com as bolas na rede, e a direita argentina com os votos na urna. (Foto: AFP)

Enquanto Macri também precisa se posicionar entre os presidenciáveis oposicionistas para poder aproveitar bem essa possível carta na manga. O que consiste abrir vantagem nas pesquisas sobre Sergio Massa, um ex-kirchnerista também oriundo do futebol (foi presidente do clube Tigre), que tenta se levantar como terceira via e melhor antagonista do governo atual – como o que vem fazendo Marina Silva no Brasil, desde 2010. As pesquisas divulgadas na Argentina este ano têm variado bastante em seus resultados, Macri apareceu liderando algumas, mas a diferença entre ele, Massa e Scioli nunca ultrapassa 10% das intenções de voto.

Especulações, sim. Especulações que, se confirmadas, poderiam transformar Tévez no primeiro jogador a vencer a Champions League e a Libertadores no mesmo ano. E se de especulações se trata, também é certo que os interesses do mercado estão depositados num só candidato, e todos sabem qual é.

  • José Bruno

    Fera, o contrato do Tevez é até 2016, pesquisa um pouco mais! Texto tá parecendo mt teoria da conspiração!

    • The Sickness Unto Death

      Tevez voltou e vai agora Mauricio macri chutar do partido da bruxa.

  • The Sickness Unto Death

    Tevez voltou e agora como riqueleme vai ajudar a derrotar o partido da bruxa.