Um encontro que esperou 36 anos

por Victor Farinelli e Aline Gatto Boueri*

Estela de Carlotto tinha 47 anos quando Laura, sua filha mais velha, desapareceu.

Era um triste triste dia florido de primavera de 1977. A Argentina já vivia mais de 20 meses de ditadura. Estela perdeu uma filha, mas não sabia que tinha ganhado um neto. Revirou o país em busca dela, e chegou a ser recebida pelo general Reynaldo Bignone quando este era figura importante do aparato de repressão – anos depois, ele seria presidente, o último da ditadura argentina –, mas a resposta foi “não lhe recomendo alimentar esperanças”.

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Estela de Carlotto, metade da sua vida levando a esperança de não morrer antes de encontrar seu neto. Foto de Aline Gatto Boueri.

Meses depois do conselho, encontrou uma jovem que havia sido libertada após meses compartilhando um calabouço com Laura. Ela contou as torturas e humilhações sofridas por ambas, disse que Laura comia pouco, mas resistia à violência. O mais emocionante: revelou que ela estava grávida, que o filho seria um menino e que se chamaria Guido, como seu avô.

Quando foi presa, Laura era estudante de História da Universidade de La Plata, e militante da Juventunde Peronista. Em agosto de 1978, os militares entregaram a Estela o cadáver da filha. “Foi uma espécie de privilégio, eram poucos os familiares que podiam recuperar o corpo de um parente desaparecido, e ao mesmo tempo um choque. Tive raiva do mundo. Tive raiva de Deus, tantas orações e promessas… Mas logo passou, decidi não ter mais raiva de Deus, porque era culpa dos homens, e nem dos homens queria alimentar rancor. Só queria a verdade, reparação e justiça”.

Poucos meses antes de enterrar a filha, Estela havia começado uma organização com outras mães que buscavam seus filhos. Algumas também sabiam de crianças e bebês capturados. Junto com elas, começou um longo trabalho de busca, principalmente dos netos. Vestiam panos ao redor da cabeça, e iam à Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, exigir o paradeiro das meninas e meninos. Eram as Avós da Praça de Maio.

Durante décadas, as Avós se dedicaram a buscar seus netos. Um trabalho, como disse Estela, sem rancor, movido pelo amor e o desejo de encontrar a verdade e a justiça, com muita paciência, criando banco de dados genéticos, sistema de informação, e contando com curiosidade dos jovens sobre seu próprio passado.

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As Avós da Praça de Maio nos primeiros anos da luta por recuperar os netos.

Muitos netos recuperados, principalmente nos últimos anos, chegaram até elas voluntariamente – assim como Guido. São jovens que atenderam ao chamado das avós: “se você tem dúvidas sobre o seu passado, procure-nos”. As Avós da Praça de Maio hoje apontam também a seus bisnetos. Livros infantis, palestras em escolas, e campanhas publicitárias que convidam os que hoje são pais e mães de outras crianças a conhecer seus pais e mães, suas avós e seus avôs.

Em 2011, Estela escreveu uma linda carta para Guido, que chegou aos meios de comunicação:

“Meu querido neto Guido,

Hoje você completa 33 anos. A idade de Cristo, como diziam, como dizemos nós, as velhas. Com essa inspiração penso nos Herodes que ‘te mataram’, no momento em que você nasceu, ao apagar o seu nome, a sua história, os seus pais. A Laura (María), sua mãe, deve ter chorado o dia da sua crucificação e, de alguma estrela distante, espera a sua ressurreição à verdadeira vida, com a sua identidade real, recuperando a liberdade, rompendo as grades que te oprimem.

Querido neto, o que eu daria para que você se materialize nas mesmas ruas em que te procuro desde sempre. O que eu daria para poder te entregrar esse amor que me sufoca depois de guardá-lo por tantos anos. Espero esse dia com a certeza de minhas convicções, sabendo que, além da minha felicidade por esse encontro, os seus pais, Laura e Chiquito, e o seu avô Guido no céu, nos darão um abraço apertado do qual não nos vamos a separar nunca mais.

Sua avó,

Estela”

A perseverança de Estela a levou ao reencontro com Guido, na tarde desta terça-feira (5/8), e também com parte da história da própria filha. Na clandestinidade, Laura tinha um companheiro que a família não conhecia. Procurado pelos Carlotto, desaparecido pela ditadura, Oscar Montoya era o possível pai de Guido, segundo as reconstruções que a família pôde fazer do último ano de vida de Laura – grande parte dele em centros clandestinos de detenção.

Os Montoya doaram material genético para o eventual encontro com Guido. Essa tarde especial para Estela, também foi alegre para uma outra avó, que aos 91 anos recebeu um telefonema com a notícia. “Eu tenho um neto”!

114 abrazos

Antes, durante e depois do anúncio, um canto com aquele ritmo mundialista que todos os brasileiros conhecem: “milico, decime qué se siente/ que hayamos encontrado a un nieto más/ te juro que aunque pasen los años/ siempre los vamos a buscar/ porque ahora somos más/ las viejas van a brindar/ y los pibes con nosotros van a estar”.

 Estela, a avó generosa, que ajudou a encontrar 113 netos antes que o dela aparecesse, elogiou a capacidade de “transformar a canção”. “Não gosto muito dessa coisa de ‘velhas’, mas enfim… somos velhas. Velhas do amor”.

Laura passou cinco horas ao lado do seu filho, antes do sequestro do bebê que apareceu hoje, aos 36 anos. Guido Montoya Carlotto é o neto número 114 de cerca de 500 que a ditadura argentina roubou de suas famílias, de suas histórias, de sua origem.

Ao anunciar o reencontro com Guido, Estela lembrou uma frase que costuma citar, de Laura, enquanto estava em cativeiro, relatada por sua ex-colega de cela: “minha mãe não vai esquecer o que vocês estão fazendo comigo”. E tinha razão, ela não esqueceu. E continuará não esquecendo, como deixou claro nas palavras que finalizaram a coletiva:

– Até o próximo neto!
 
* Este texto foi co-escrito por Victor Farinelli, um dos titulares do blog, e a talentosa jornalista Aline Gatto Boueri, membro da equipe editorial da Revista Geni e correspondente do Opera Mundi em Buenos Aires, que esteve presente no anúncio do 114º neto.

  • Antonio Lobo Silva

    É ler e chorar de emoção! Vale a pena viver!

  • Sylvia Tigre de Hollanda Cavalcanti

    Li chorando,imaginando a emoção,a alegria e a felicidade dessas avós,bem como a força que só mesmo o
    amor pode dar-lhes.Benditas avós,que Deus as ilumine e abençoe sempre.

  • Diva M. Falcão

    Uma grande alegria! Uma grande emoção!
    Que todos os filhos e netos perdidos, sequestrados, voltem o mais depressa possível para os braços de seus pais, de seus avós!
    Diva Falcão.

  • Ernesto Oscar Acosta

    Querida Estela, queridas abuelas, queridas madres de Plaza de Mayo: el país las abraza con alegría y festejamos el encuentro de Guido como un triunfo. La vida y el amor vuelve a ganarle al terror.

  • Antônio Oliveira da Silva

    As avòs da Praça de Maio demonstram a distância que nos separa dos Argentinos. Eles prenderam os ditadores, os torturadores, acharam seus desaparecidos e essas mulheres, como essa avó e seus 114 abraços a mim muito emociona e também me deixa feliz. Eu posso acompanhar o crescimento da minha neta e essa senhora consegue o seu primeiro abraço 36 anos depois. Maravilhoso!

  • Koalan

    Escorreu uma gota máscula de meus olhos, deve ser suor…

  • Roland Scialom

    As senhoras da Praça de Maio foram ficando idosas à medida que os anos passaram, entretanto, fecundar o mundo com sua energia e fé. Elas merecem muito respeito e admiração e que sua memória seja perpetuada.

  • tricolor

    Emociona o relato. Que bom que uma avó e um neto façam restaurar o vínculo familiar rompido pela violência de carrascos fardados, ou não.
    Impressionante como no Brasil ainda existam saudosos do golpe de 64. Ditadura, nunca mais!

  • Álvares de Souza

    Esta história me tem feito chorar toda vez que leio algo sobre ela. Tenho setenta e três anos e três netos, sadios, lindos, o que me permite sentir toda a dor dessas avós e a alegria do reencontro com seus netos, fruto de sua luta incansável para resgatá-los. Mais do que nunca, não são as punições recebidas pelos facínoras que tanto sofrimento causaram à tantas famílias e ao povo argentino, mas a luta iluminada dessas mães e avós que consagra a lição maior de que a humanidade haverá sempre de vencer o mal através do amor.

    • Monique

      Que lindo! Que lindas palavras! Deus te abençoe!

  • Milene Figueiredo

    Enquanto isso… Aqui, comemoramos o Golpe!!!

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