Um Retrato da Cuba pós-Fidel

No dia 2 de janeiro, em frente a Praça da Revolução, em Havana, se realizou o primeiro desfile cívico-militar sem Fidel. Na avenida Paseo – onde está a famosa imagem do Che – os cubanos comemoraram o 58° aniversario do triunfo da Revolução, no lugar onde os moradores da capital começaram a se agrupar desde as 4 da manhã.

Menina acompanha a marcha sobre os ombros do pai. Gerações diferentes, percepções distintas. (foto: Jennifer Astudillo)

O início da marcha foi às 7h, com 21 tiros de canhão. Logo, uma caminhada pela praça, onde os quase 50 mil representantes do povo havaneiro saudaram o presidente Raúl Castro, os dirigentes do governo e das organizações sociais e comunitárias.

A maioria das pessoas presentes na praça também participou dos atos nos seus centros de trabalho e nas escolas, mas poucos chegaram lá por seus próprios meios. Comparado a anteriores manifestações do povo cubano, a marcha contou com um número reduzido de participantes, tendo em conta as concentrações e marchas nesta mesma praça que, anos atrás, convocaram a quase meio milhão de almas – em 2005, segundo a imprensa local, chegaram a concentrar um milhão de cubanos no mítico Malecón.

Após a morte de Fidel Castro, um silêncio absoluto tomou conta do arquipélago. Durante vários dias, foram poucos os que se atreveram a colocar música alta, para criar o clima que se costuma sentir na capital cubana.

“Lamentavelmente, a maioria das pessoas não sentiu nem alegria nem tristeza, simplesmente indiferença”, é o que diz Mercedes Rodríguez de 52 anos, moradora da capital, ao ser perguntada sobre a reação do povo à morte do histórico líder da Revolução.

O vizinho do norte, a juventude e a Revolução

Desde o começo da aproximação diplomática entre Cuba e Estados Unidos, a população vê com esperança uma melhora econômica. Nos últimos anos, proliferaram os trabalhos por conta própria, enquanto o Estado realiza cortes drásticos no setor público. O governo cubano decidiu impulsar uma série de “retificações” no modelo econômico, que foram iniciadas após a chegada de Raúl Castro ao poder.

Felipe Pérez Roque e Carlos Lage Dávila, atrás de Raúl Castro. Ambos eram tidos como o futuro político da ilha, até serem acusados de conspiração contra a Revolução.

Em paralelo a essas modificações, alguns ex-combatentes da célebre Batalha de Sierra Maestra – inclusive os já retirados das Forças Armadas – foram buscados para ocupar cargos no governo, como é o caso do ministro do Interior, Carlos Fernández Gondín que faleceu recentemente – no dia 9 de janeiro, aos 79 anos. O principal problema para o governo tem sido a dificuldade em encontrar jovens dispostos a continuar a obra da Revolução.

Mais da metade dos líderes da União de Jovens Comunistas caíram em desgraça após a descoberta de casos de corrupção, ou por serem acusados de conspiração contra o Estado, algo que ocorreu reiteradamente com outros dirigentes jovens no país.

Foi o caso de Felipe Pérez Roque, ex-chanceler de Cuba, e Carlos Lage Dávila, que foi vice-presidente do Conselho de Estado – muitos pensavam que ele chegaria a ocupar o máximo cargo da nação. Ambos apresentaram cartas de renúncia reproduzidas sem grande repercussão pela imprensa local, sem explicar bem porque deixavam o cargo ou porque mostravam sentir vergonha por seus atos.

Naquele momento, o próprio comandante Fidel Castro escreveu uma reflexão na qual indicava que “o mel do poder, na boca daqueles que não fizeram nenhum sacrifício, despertou ambições que os levaram a um papel indigno”. Ainda assim, não se divulgou maiores detalhes.

Finalmente, o diário El País da Espanha publicou um artigo no qual afirmou que os dois funcionários do governo, junto com o assistente pessoal de Fidel, Carlos Valenciaga, e dezenas de outros dirigentes – os mais jovens da direção política – preparavam uma transição no país à revelia dos líderes históricos da Revolução, e com a cumplicidade do Centro Nacional de Inteligência espanhol.

A economia depois de Fidel

A Cuba depois de Fidel é um lugar estranho, um país que construiu um socialismo com características cubanas, mas onde os “novos pinos” – como chamam os mais jovens – preferem ganhar 2,4 mil pesos cubanos por mês (cerca de 328 reais) em trabalhos particulares não profissionais, do que estudar e se diplomar para obter um emprego com salário de 500 pesos (69 reais).

Para se falar nesses valores, deve-se considerar que o custo de vida em Cuba é bastante baixo, já que não se gasta nada em saúde e educação, e a tarifa dos transportes coletivos urbanos é ridícula (cerca de 5 centavos de real). Por outro lado, embora o Estado assegure uma cesta básica de comida com 200 ml de aceite por pessoa, a garrafa de um litro custa 10% do salário de um profissional.

Ponto de Internet utilizado pelos moradores de Havana. (foto: Jennifer Astudillo)

Grande parte desta situação é resultado do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos desde os primeiros anos da Revolução, que vem deteriorando consideravelmente a economia desde o fim da União Soviética e da transição nos demais países aliados do campo socialista.

Os documentos desclassificados pela CIA planteiam que o objetivo do embargo é gerar desesperação e insatisfação com o governo. Por isso, apesar da aproximação diplomática, os Estados Unidos se negam a derrubar a medida, mantendo o embargo vigente, ainda quando algumas restrições tenham sido efetivamente levantadas. Calcula-se que o embargo significa perdas milionárias ao país, além da manutenção de uma situação econômica que o governo cubano denomina como “Período Especial”, que – segundo as autoridades – ainda não terminou.

Apesar desta situação, os jovens cubanos rejeitam a ideia de superar a emergência econômica através de uma transição a uma sociedade de consumo. “Isto tem que mudar, não podemos seguir com a mesma situação e o mesmo discurso de 60 anos, mas tampouco queremos terminar sendo uma dessas nações endividadas da América Latina, e perder as conquistas sociais da Revolução, os avanços na saúde, na educação e na segurança”, diz Rodrigo Hinojosa, mecânico de 24 anos, morador de Havana.

Esenet: a Internet que não cruza fronteiras

À primeira vista, as novas gerações parecem quase não falar sobre o socialismo, e suas aspirações se limitam a conseguir Internet, através do sistema Esenet, criado especialmente para pessoas residentes em Cuba.

Exemplo de perfil pessoal do sítio Wifinet, a versão cubana do Facebook.

O acesso à Internet pode ser uma tarefa complicada. Talvez não para os turistas, que podem acessar melhores conexões em alguns hoteis com melhor serviço, mas sim para os moradores da capital, para os quais só é possível se conectar em alguns lugares específicos. Os pontos de conexão determinados na cidade são escassos, e alguns bastante caros. Navegar por uma hora custa em média 1,5 dólar, e requer a compra de cartões da Esenet, que podem ser adquiridos em sucursais da Empresa de Telecomunicações de Cuba. Entretanto, grande parte dos internautas acessam o serviço sem fazer filas, através das revendas de cartões no mercado negro, onde o preço mínimo é de 3 dólares, o dobro do encontrado nas sucursais regulares. Apenas as pessoas com residência na ilha têm acesso a esse sistema.

A Esenet é o espaço virtual onde a juventude havaneira se encontra. Nela, vários sítios funcionam como genéricos do Facebook (como é o caso do Wifinet) ou do Instagram (cuja versão cubana se chama Súmate) e outras redes sociais existentes. Também existem páginas de compra e venda, semelhantes ao Mercado Libre. Entre elas está o sítio Timbirichi, um dos mais utilizados pelos jovens cubanos. Nesses sítios que emulam as redes sociais não se pode falar de religião nem de política ou de outros temas que geram polêmica – o perfil do usuário que o faz pode ser banido pelo servidor.

O espaço virtual também é usado para promover eventos culturais, mas o uso mais comum é para jogos online com outros usuários – jogos como Dota e Call of Duty, entre outros –, que podem se conectar através de um nano, dispositivo semelhante a um router, cujo valor varia entre 120 e 300 pesos cubanos convertíveis cubanos (entre 400 e mil reais).

É importante explicar que o peso cubano e o peso cubano convertível são moedas diferentes, que se usam para diferentes casos. O peso cubano comum é usado pelos residentes para gastos cotidianos, enquanto o peso convertível é mais usado por turistas, mas também por residentes, para comprar sobretudo equipamentos tecnológicos e outros produtos importados. Um peso cubano convertível vale aproximadamente 22 pesos cubanos comuns. Assim, um peso convertível vale cerca de 3 reais, enquanto o peso comum equivale a apenas 13 centavos de real.

O “pacote”: entretenimento ao estilo capitalista

Após a queda dos aliados socialistas no Leste Europeu, a economia cubana sofreu um colapso que teve como resultado a perda de cerca del 75% do seu PIB. Fidel encabeçou uma campanha de resistência, baseada na transformação do modelo econômico, sob a consigna da “batalha de ideias”, através da qual Cuba não cedeu à política de asfixia econômica de Washington.

Mostrador exibe ofertas de cartões telefônicos e de Internet, em ponto de Internet de Havana. (foto: Jennifer Astudillo)

Durante os Anos 90, os cubanos tiveram que “inventar” para “resolver”. Surgiram os primeiros trabalhos por conta própria, e vários ofícios bastante peculiares: os fosforeros, que se dedicam a consertar ou recarregar isqueiros, os reparadores de guarda-chuvas, vendedores ambulantes de pizza, ou de comidas em caixinha, ou de ventiladores feitos com motores de máquinas de lavar, recicladores de latas de alumínio, etc.

Duas décadas depois da fase mais crítica do chamado Período Especial da sua economia, os cubanos criaram uma alternativa de entretenimento muito popular, conhecida como el paquete, ou o “pacote”. Se trata de uma compilação de arquivos digitais que se vendem semanalmente entre 1 e 3 pesos convertíveis cubanos (entre 3 e 10 reais). Em 900 Gb se reúne de tudo, música, telesséries, filmes clássicos, programas de televisão, vídeos de youtube, aplicativos e outros.

Entre os vídeos e filmes mais buscados nos “pacotes”, se inclui material promocional desse e de outros serviços oferecidos pelos próprios vendedores e por terceiros. Na televisão cubana não existem comerciais, mas nos “pacotes”, entre um e outro arquivo reproduzido, aparecem anúncios de docerias, pizzarias, tatuagens, conserto de eletrodomésticos, no mais puro estilo capitalista de vendas pela televisão, oferecendo até mesmo entrega a domicílio.

O futuro da ilha

Cuba projeta um crescimento de 2% para este 2017, número um pouco ambicioso, considerando que a cifra deste 2016 registrou uma queda de 0,9%. Mas a Revolução continua de pé, apesar das dificuldades e de alguns equívocos, e das manobras externas para prejudicar a economia, que embora tenha gerado certo descontentamento entre as novas gerações, não abalaram a fé da maior parte dos cubanos que viveram o período com Fidel no poder, a maioria com mais de 40 anos. Eles ainda representam uma grande parte da população, a qual se mantém fiel ao projeto socialista.

Socialistas marcham no centro de Havana. (foto: Jennifer Astudillo)

As reformas no país foram mudando as relações econômicas, mas os pilares do sistema social continuam firmes. O governo cubano tem agora como desafio a superação dessa brecha entre gerações, cujas percepções e sensibilidades são distintas. Os mais jovens exigem maiores liberdades e se comparam com o que observam dos jovens de outros países.

Assim, a direção política do país deverá enfrentar o medo às mudanças e se abrir às transformações que levem a novos contextos geopolíticos, e oferecer a essa nova geração uma alternativa que seja atraente e signifique mais liberdades, sem perder os benefícios dos direitos sociais históricos construídos pela Revolução.

Talvez, como diz o trovador cubano Carlos Varela lá pelos Anos 90, é hora de que, em Cuba, Guilherme Tell compreenda que “seu filho cresceu e é a vez dele de atirar a flecha”.