Uma nova chacina, um México que continua o mesmo

Neste fim de semana, o mundo soube de mais uma chacina brutal no México. Foram cinco novos cadáveres encontrados na noite de sexta-feira (31/7), dois deles (duas mulheres) ainda não identificados, num apartamento em Colonia Narvarte, no Distrito Federal mexicano, e a retomada da já velha discussão sobre se o país já perdeu a capacidade de se horrorizar com sua triste realidade – uma discussão que, em si, já desumaniza bastante o tema.

Nadia Vera, ativista mexicana encontrada assassinada na última sexta-feira (foto: Facebook)

Nadia Vera, ativista mexicana encontrada assassinada na última sexta-feira (foto: Facebook)

Entre os corpos identificados está o da ativista social Nadia Vera, que em 2012, quando era estudante da Universidade de Veracruz, integrou o Movimento Yo Soy 132 – contra a falta de liberdade de expressão e de um verdadeiro debate com a cidadania durante as eleições presidenciais daquele ano.

Outro assassinado foi o fotógrafo Rubén Espinosa, quem há poucos dias havia denunciado ameaças de morte por parte do governador do Estado de Veracruz (a leste da capital mexicana), Javier Duarte de Ochoa – do PRI (Partido Revolucionário Institucional, de centro-direita), o mesmo do presidente Enrique Peña Nieto. Espinosa havia se mudado para a capital do país por medo das ameaças.

Além da ativista e do jornalista, também foi identificado o corpo da maquiadora Yesenia Quiróz. Os corpos das quatro mulheres demonstravam sinais de violência sexual. Os cinco estavam com as mãos atadas e um tiro na cabeça.

Assim como aconteceu com o caso dos 43 estudantes normalistas de Ayotzinapa – cujos corpos continuam desaparecidos, o que também favorece a impunidade, presente nesse e em vários casos similares –, a descoberta dos corpos gerou uma rápida e massiva reação de repúdio dentro e fora do México, mas depois disso, a esperança de que se faça justiça se desfaz sensivelmente diante das primeiras reações das autoridades.

Rubén Espinosa, em manifestação em janeiro, pela morte de Moisés Sánchez, o primeiro jornalista assassinado no México em 2015, e o décimo em Veracruz durante o governo de Duarte de Ochoa. O próprio Espinoza pode ter sido uma nova vítima. (foto: Imagem del Golfo)

Rubén Espinosa, em manifestação em janeiro, pela morte de Moisés Sánchez, o primeiro jornalista assassinado no México em 2015, e o décimo em Veracruz durante o governo de Duarte de Ochoa. O próprio Espinoza pode ter sido uma nova vítima. (foto: Imagem del Golfo)

Designado para liderar o caso, o promotor Rodolfo Ríos Garza, da PGJDF (Procuradoria Geral de Justiça do Distrito Federal) foi logo apontando a hipótese se roubo com resultado de morte como a que se está trabalhando neste momento. “Todas as linhas de investigação estão abertas, mas os indícios por enquanto indicam que houve um roubo, já que as vítimas tiveram seus pertences subtraídos e o apartamento onde ocorreram os homicídios foi saqueado. Só poderemos afirmar que houve uma motivação quando encontrarmos os indícios necessários”.

A velocidade com que se aponta o latrocínio como linha investigativa prioritária é frustrante, já que as ameaças recebidas por Espinosa e o fato de que tanto ele quanto Nadia Vera serem personas non gratas em Veracruz são indícios com o mesmo peso que os apontados pelo promotor, o que deveria levar a possibilidade de um crime com motivação política a ter, pelo menos, a mesma prioridade.

Também deveria ser considerado o fato de que outros 12 jornalistas foram assassinados no Estado de Veracruz durante a administração de Duarte de Ochoa, ou que este é o sétimo jornalista assassinado só este ano no México, o país mais perigoso da América Latina para se exercer essa profissão, e o sexto do mundo – com mais de cem repórteres, fotógrafos, radialistas e cinegrafistas mortos neste século.

Os números somente confirmam como a realidade social do México é afetada pela bem sucedida parceria entre os partidos e o crime organizado, acumulando tanto poder político e econômico que coloca em risco a vida de jornalistas, ativistas e demais pessoas que ousam levantar a voz contra o atual equilíbrio de forças.

Estar “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, como diz a velha máxima, já não é, há muito tempo, o problema mais complicado dos mexicanos.

Fotógrafos encabeçaram manifestações em homenagem a Rubén Espinosa em todo o México, como esta em Guadalajara, neste domingo. (foto: AFP)

Fotógrafos encabeçaram manifestações em homenagem a Rubén Espinosa em todo o México, como esta em Guadalajara, neste domingo. (foto: AFP)

  • Alberto Magno Filgueiras

    É uma tragédia essa vivida pelo belo e sofrido país, o primeiro atingido pelo vendaval da desregulação financeira nos anos 90 e agora às volta com uma endemia socialmente letal como é o narcotráfico.

  • Marly Danila Camargo

    Quer dizer, então, que o PRI é um partido de centro-direita? Como pode um partido forjado na revolução zapatista de 1910 ser de centro-direita? Esse partido sempre utilizou um discurso de cunho radical com expressões de esquerda,como proletariado,revolução, entre outras características da esquerda radical.O PRI mexicano é muito parecido com o PT.Em tudo.E SE O Brasil não tomar cuidado vai se transformar num novo México.

    • Roberto

      Um partido que até fez privatizações.

      você sabe que um partido pode mudar de lado facilmente, mas para bancar o chato aqui faz qualquer coisa!

    • Fernanda Dias Manetta Aquino

      Se você tivesse de fato estudado a rev. mexicana e os partidos do México formados a partir desta, saberia que os grupos de esquerda de fato zapatistas abominam e praticam constantes atentados ao PRI, Peña Nieto e todos os governadores da aliança PRI-Partido Verde. O PRI não somente é de centro-direita, como está se tornando uma direita radical por debaixo dos panos.