Venezuela não é um perigo, mas está em perigo

Conversando com uma querida amiga do blog e ex-correspondente em Caracas, me senti mais animado para comentar o anúncio em Washington de que a Venezuela entrou na lista dos países que “ameaçam a segurança nacional dos Estados Unidos”, junto com as sanções que sempre fazem parte do pacote.

Dois governos em confronto.

Dois governos em confronto.

Nosso papo foi sobre como um país como os Estados Unidos, país com maior arsenal nuclear do planeta, que coleciona incontáveis ações militares em todos os continentes, com milhares de mortos e torturados, países destruídos social e estruturalmente, e que atuou na derrubada de governos democráticos, gerando ditaduras com milhares de mortos e presos políticos – a América Latina está repleta de exemplos disso –, pode se sentir ameaçado pela Venezuela, que não possui armas nucleares, não apresenta histórico de invasão contra país algum, sequer os vizinhos, e tampouco possui um arsenal capaz de fazê-lo ainda que pretendesse.

Minha amiga, que conhece a realidade venezuelana bem melhor que eu, lembrou que a Venezuela também tem mortos e presos políticos no seu triste presente de confrontação política. Esses mortos estão de ambos os lados. Houve mortes nas marchas opositoras, muitas. Também houve mortes do lado chavista, e também foram muitas. Aliás, o único político morto até agora nos confrontos entre os dois lados da polarização foi o deputado chavista Robert Serra, um dos mais jovens e promissores quadros políticos do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), e no dia da vitória eleitoral de Maduro, quando Henrique Capriles fez uma chamado para seus eleitores não reconhecerem o resultado das urnas, oito pessoas foram assassinadas por motoqueiros com capuz em bairros tradicionalmente chavistas.

Isso não significa que essas mortes tenham mais valor que a dos opositores mortos, mas nessa guerra de informações, muita gente só vê o noticiário falando da violência chavista, e não a dos opositores. No Chile, os meios de comunicação também noticiavam somente um lado da violência, até que uma chilena chavista foi assassinada por manifestantes opositores – um grupo montou uma barricada na frente da casa dela, que saiu para tentar desmontar, alegando que estava atrapalhando a vida das pessoas da vizinhança, e acabou sendo morta com um tiro na cabeça. É mais, a imprensa chilena tentou atribuir o assassinato ao governo, e precisou a família dela esclarecer que ela era chavista e que já tinha sido ameaçada por opositores quando reclamou de barricadas anteriores no mesmo local.

A Venezuela tem presos políticos. Eram quatro, um deles foi solto em fevereiro. Sempre é saudável nas democracias questionar e condenar a existência de presos políticos, mas não de um termo sem nome e sem rosto. Quem são os presos políticos da Venezuela? Por exemplo, Leopoldo López, o que está preso a mais tempo, foi detido em fevereiro do ano passado, após liderar um movimento chamado La Salida, que assumia sem a menor vergonha que seu propósito era forçar a queda do presidente Nicolás Maduro, renunciado ou derrubado. Ou seja, o objetivo era quebrar a ordem constitucional, e para isso não se estipulou qualquer tipo de limite, inclusive o de estimular a violência. Alguém já imaginou um movimento nos Estados Unidos ou na Alemanha atentando claramente contra a ordem constitucional, como seria considerado? Atividade política legítima ou criminosa?

Dois governos em perigo.

Dois governos em perigo. (Foto: AFP)

Outros dois detidos foram Daniel Ceballos e Enzo Scarano (o que já foi libertado), dois prefeitos condenados pelo Tribunal Supremo de Justiça por terem incentivado as chamadas “guarimbas” (barricadas feitas por manifestantes em centros urbanos) e por terem se negado a acatar decisão da Justiça para agir no restabelecimento da ordem, o que aliás é dever constitucional de ambos como prefeitos. A Venezuela é a única democracia do mundo onde um prefeito que descumpre uma ordem judicial vai preso? A Justiça, ao mandar o prefeito desfazer barricadas nos centros urbanos, está tomando alguma medida arbitrária? O quarto preso político é Antonio Ledezma, o prefeito de Caracas, que participou do golpe de Estado de 2002 e é agora acusado de conspirar contra Maduro. As condições em que vivem esses presos estão muito longe de se parecer às que vivem os presos políticos estadunidenses em Guantánamo, ou o que se viveu em Abu Ghraib, e menos ainda se parece ao que se viveu nas masmorras do DOI-CODI e do DOPS no Brasil, ou as da DINA e da CNI, no Chile de Pinochet.

A Venezuela só pode ser vista como ameaça à segurança dos Estados Unidos pelo fato de possuir em abundância o petróleo que o país do norte necessita para saciar o voraz apetite do seu mercado e sua indústria – pense nessa necessidade, comparando com outras ex-ameaças-à-segurança-nacional, como Líbia e Iraque. Em outros aspectos, e para o resto do mundo, a Venezuela não é um perigo, mas está em perigo, ainda mais desde que a oposição decidiu que não aceita resultados eleitorais e que age em função da derrubada do presidente e da ordem constitucional. Algo não muito diferente do que se vê no Brasil, e está aí a marcha do dia 15 de março, baseada também na ideia de se fazer política forçando a derrubada do governo. A diferença, no caso da Venezuela, é que ela entrou para a lista das “ameaças a segurança nacional” dos Estados Unidos, e isso pode levá-la a ser alvo de uma futura intervenção militar, como aconteceu no passado recente com países com as já citadas Líbia e Iraque, deixando como resultado países devastados e “estados zumbis”. Essas últimas definições eu reproduzo de um artigo recente do Rodrigo Vianna, em seu blog, onde ele também lembra como os liberais uspianos, nos Anos 80, riam e classificavam como teoria da conspiração a ideia de que os Estados Unidos patrocinaram as simultâneas ditaduras sulamericanas. Hoje, com os documentos da Operação Condor revelados, o ridículo é tentar negar essa verdade.

O curioso é que se alguém disser que os Estados Unidos estão patrocinando iniciativas para forjar o atual panorama político regional, onde se vê tentativas simultâneas de se desestabilizar governos democraticamente estabelecidos na Venezuela, na Argentina e no Brasil, é bem capaz de ser acusado de louco conspiratório.

  • O que o Rodrigo Viana não disse; O que ele esqueceu de dizer é que nas décadas de 60/70, quando graças a Deus os EUA patrocinaram vários golpes de Direita no cone sul, foi que a Esquerda Avançava a paços LARGOS para tomar toda a América Latina, e ai, ele e todos nós estaríamos plantando Batatas no campo para sustentar a “DITADURA DO PROLETARIADO”.

    • Renato Schmitt

      Paulo Brites com seus cometários sem funfamentos. Paulo, a oração do “Pai Nosso” você conhece? Já fez uma análise municiona das palavras que compõe essa oração? Faça isso e me responda que proposta ela traz para nós? As pessoas rezam essa oração, sem se dar conta de que ela traz uma proposta para os humanos que se dizem cristãos.

  • O Brasil corre perigo Sim, qualquer analista político já percebeu que o alinhamento político do governo do PT com CUBA e VENEZUELA já é perigoso, o que muitos tentam esconder é esse desejo insano do PT de transformar o Brasil em uma enorme CUBA, esse é o perigo real.

    • Fernando Fernandes

      Brites, que tamanho descompasso seu, afirmar que o PT quer transformar o Brasil em uma Cuba. Em Cuba existe, o que não existe no país do futebol, que é solidariedade humana (exemplo mais claro que os cubanos do + Médicos). No Brasil existe pessoas egoístas, egocêntricas, individualistas como vc, que semeia o ódio ao PT, só porque seus lideres (Lula e Dilma) implantou projetos sociais que contribuíram para milhões de brasileiros saírem da miséria absoluta. Enquanto o Brasil é referência mundial de combate a fome, a classe média e a burguesia brasileira querem dá um golpe de estado, não respeitando o resultado das urnas de outubro de 2014.

    • Viviane

      Realmente a luta contra o neoliberalismo devastador e um crime inafiançável e a indústria da alienação já fez a miséria tanto intelectual, quanto na social, afinal exemplos temos de monte como o Sr Brites em questão!E aqui no Brasil a grande maioria dos questionadores do atual governo seria da classe média e alta porque? Simples a diferença social alimenta as engrenagens deste sistema econômico atual e como dizia o Grande Milton Santos ” classe média não quer direitos e mas sim privilégios.”

      • Renato Schmitt

        Viviane = cheia de sabedoria. Fico feliz em ler seu comentário.

    • Renato Schmitt

      Paulo Brites = só escreve abobrinhas.

  • Renato Schmitt

    Cada vez que me informo sobre a Venezuela, nesse e em outros sites fico tranquilo de ter recebido uma boa notícia. Boa, no sentido de ser uma notícia sem pintura, sem disfarce. Verdadeira, comprometida com a boa notícia. Se alguma notícia relacionada a Venezuela for ou já foi escrita ou ao ar por algum meio de comunicação sem compromisso, eu posso estar tranquilo, eles não estão instalados no meu lar.

  • Luis Fernando Gigena

    Peraí, quando a justiça manda PM agir no Brasil e ele se recusa é herói e quando um prefeito se recusa a usar violência contra o povo é preso e tá certo? Explica pra mim!!

  • Dura_Realidade

    Viva a democracia bolivariana da Venezuela, terra de economia sólida, direitos humanos e liberdade para todo o povo! Onde a imprensa é livre, e a política é, com o perdão do trocadilho, madura.
    Totalmente diferente de ditaduras militares de direita ou de esquerda que tanto tivemos historicamente na América Latina.
    Veremos os próximos capítulos desse exemplo democrático de governo que espanta o planeta com seus feitos cada vez mais impressionantes!