Villa 1.11.14 e a luta pela sobrevivência em Bajo Flores

*Por Larissa Valença

Um raio de sol tímido me recebeu ao entrar naquela primeira rua larga da Villa 1.11.14. Há quem viva na região metropolitana de Buenos Aires, mas nos arrabaldes, em assentamentos urbanos marginais, conhecidos no Brasil como favelas. Na capital portenha o nome dado é ‘Villa Miseria’ o termo se tornou usual devido às publicações jornalísticas e do romance de Bernardo Verbitsky: “Villa Miseria también es America”, escrito em 1957, em que descreve as condições precárias em que viviam os imigrantes entre os anos 1936 e 1946.

Primeira rua que fui apresentada na Villa 1.11.14 (Foto: Larissa Velença)

Primeira rua que fui apresentada na Villa 1.11.14 (Foto: Larissa Velença)

Hoje, 68 anos depois, as desigualdades atravessam o tempo, vi muitos imigrantes na villa. De senhores com olhares de soslaio, meninos jogando futebol, crianças interessadas por uma história que saltava do livro, a mães com olhares pungentes, a maioria da população que vi tinha uma semelhança, eram imigrantes do altiplano, me alimentando com sua maneira vívida.

São aproximadamente 640 villas em torno de Buenos Aires, dentre elas uma das mais conhecidas é uma cujo nome parece mais uma data: 1.11.14 – você já deve ter notado, portanto, que a data desta publicação não é um acaso, hoje é o dia ideal para conhecer as histórias dessa favela, à qual os convido a entrar.

A primeira parada foi numa escola de ciclo básico, num parquinho sem crianças. Juan Manuel Mauro, militante e coordenador da única escola de ensino médio EMEM nº 3 me mostra os rastros da exploração latino-americana. Casas comuns sem cor compunham essa rua. Logo, paredes com grafites e pinturas de protesto muito coloridas roubaram meu olhar, essas compunham a escola secundária. “Trinta mil desaparecidos presentes hoje e sempre”, eles não se esquecem dos dias e noites sangrentos vividos na ditadura militar, que durou oito anos. No entanto, os resquícios estão na prática de violência de Estado. Segundo dados governamentais, nos últimos doze anos, morreram 1893 pessoas vítimas de ações da polícia.

“A educação é a revolução dos pobres”, pontua Juan, que se norteia pela pedagogia de Paulo Freire. A militância é algo que marca esse território, contudo se luta com alegria pela democracia em ‘Bajo Flores’, distrito onde a villa está localizada. Através da arte e de trabalhos com enfoques sociais, a escola ressignifica a história construída diariamente pela juventude. Afastando-os dos estigmas e da marginalização, que transformam pessoas em migalhas.

O Parquinho sem crianças da escola infantil da Villa 1.11.14 (Larissa Valença)

O Parquinho sem crianças da escola infantil da Villa 1.11.14 (Foto: Larissa Valença)

Lembranças de Ezequiel Demonty

Ezequiel Demonty tinha 19 anos quando foi torturado e assassinado pela polícia. Faz 12 anos que esse crime aconteceu, mas ele segue vivo no imaginário dos alunos da EMEM nº3, os quais são as cabeças pensantes de um projeto denominado “pontes do povo”. Os jovens visam trocar o nome da ponte, que tem nome de ditador (José Felix Uriburu, 1930-1932), pelo do menino, vítima da violência policial. A ideia virou projeto de lei, orientado pelo corpo docente, e tramita no Congresso argentino, aguardando sua aprovação. A Ponte Uriburu, futura Ezequiel Demonty, liga o distrito Lanús com o bairro Pompeya da capital portenha. Uriburu foi o primeiro ditador que a Argentina conheceu, e sonhava estabelecer no país um regime semelhante ao de seu inspirador político, Benito Mussolini.

Trocar o nome é um antídoto simbólico. Para entregar o projeto de lei, o colégio público organizou um ato, ao lembrar o que aconteceu com Ezequiel visa-se escancarar essas situações de violência para que não se perpetuem. A escola atada à população trabalha para que haja memória, justiça e verdade. Além disso, no mês de setembro, aniversário da morte de Ezequiel, um boulevard foi inaugurado com seu nome na região, com o mesmo objetivo combater a brutalidade, a coerção policial, cortando suas raízes.

Durante o ato, animado pelo hino argentino fora tocado em ritmo de cumbia, uma voz dizia vibrante: “para que o jovem da escola pública pense que nem tudo se compra, e desperte nele uma vontade de mudar o mundo”. Nas paredes, havia cartazes feitos pelos alunos, que relatavam situações de violência policial. Traziam mensagens como:
“Um policial atropelou e matou uma menina de 3 anos que ia com sua mãe à escola”.

“Vi que a polícia tentou abordar um menino. O garoto não permitiu porque sabia que iam agredi-lo. Quando o pegaram, dispararam contra o rosto e várias partes do corpo dele”.

A mãe de Ezequiel é Dolores Sigampa, conhecida como Dolly, me recebe com um olhar e voz firmes. Ela é fundadora do grupo Madres en Lucha Contra la Impunidad, reunindo mães que perderam seus filhos por assassinato, crime policial ou acidente de trânsito. Seu enfoque é na penalização dos culpados. “Somos um grupo que nos diferenciamos, pois fazemos barulho, não somos senhoritas na luta. Porque, lamentavelmente, é assim que se faz para ser escutada, na Argentina é assim. Com o governo Kichner ganhamos espaço. Antes, nenhum político nos recebia, começamos a ter respaldo em caso de denúncia de violência institucional.”

Mãe de Ezequiel Demonty durante o ato que entregou o projeto de lei “Pontes do Povo” (Foto: Larissa Valença)

Mãe de Ezequiel Demonty durante o ato que entregou o projeto de lei “Pontes do Povo” (Foto: Larissa Valença)

Juan Mauro relembra que antes de Ezequiel no ano de 2001, em torno, de 30 meninos já haviam sido vítimas da polícia. O crime de Ezequiel aconteceu em 2002, no mesmo mês em que completara 19 anos, quando ele saiu para dançar com os amigos e não voltou mais. Depois de 7 dias, em 21 de setembro, seu corpo foi encontrado no rio Riachuelo. Juan Mauro relata que os culpados por esse crime foram punidos, diferentemente da maioria dos outros casos, os quais seguem impunes. “O que trouxe visibilidade para o caso de Ezequiel, é que ficou desaparecido. Se aparecesse no mesmo dia morto seria só um caso mais. Por conta da comoção e da luta das mães, conseguimos tirar a Polícia Federal da villa 1.11.14.”, enfatiza.

Para Dolly, o fato da Policia Federal não estar mais presente não ocasiona em grandes modificações, hoje é a metropolitana que atua. “São tão arbitrários quanto, já que há policiais mais velhos, os quais trabalharam na Federal ou em outra força armada assim os novatos aprendem os métodos dos antigos”.

Noite de pesadelo

A mãe provavelmente estava imersa aos sonhos quando tudo aconteceu com seu filho. Na madrugada do dia 14 de setembro de 2002, Ezequiel voltava com mais dois amigos do popular baile Bailanta Panambí. Por volta das seis da manhã, estavam tentando buscar um transporte, para retornar aos lares. Batiam na janela da loja, quando foram abordados pela polícia. Sem direito a explicações, foram espancados, insultados, torturados.

Em carros separados, levaram Ezequiel e os amigos ao mesmo destino, na altura da ponte Uriburu, na origem do rio Riachuelo.

Ao descer, as agressões e os insultos continuaram: “ Agora vão sofrer e vamos matar vocês”. Ainda não havia amanhecido. Obrigaram os meninos a atirar-se no rio poluído pelos dejetos químicos das fábricas. O primeiro foi Ezequiel. Um policial grita: “nada ou atiro em sua cabeça”, enquanto apontava a arma. Em seguida, empurraram os amigos, e gritavam afrontas racistas.

Ezequiel sabia nadar, mas estava com uma roupa pesada que, junto ao lodo do rio, entrou nos seus pulmões, contribuiu para que afundasse rapidamente . “Segundo a perícia, ele lutou por cerca de 12 minutos”, detalha Dolly.

Os dois amigos sobreviveram. Um deles agarrou-se numa rama que o salvou, o mais jovem nadou até a nascente do rio, onde pode sair.

Um dos depoimentos mais repercutidos foi do policial Somohano com alto teor de crueldade. Ao chegar ao distrito policial, afirmara a um colega que a ocorrência no bairro tinha sido solucionada: “aprenderam a nadar”.

Dolly diz que os policiais “estão acostumados a divertir-se assim com os jovens, pois são moradores de bairros marginais, discriminados, sempre os insultam dizendo ´negros de merda´”.

Com a difusão da notícia e da delegacia responsável pela mídia. Os policias foram punidos administrativamente e convocados a depor pela policia investigativa. O juízo durou 40 dias, os nove policiais envolvidos foram condenados. Seis deles de três a cinco anos. Os outros três foram culpabilizados por tortura seguida de morte, dois a prisão perpetua e um a reclusão perpetua. Um dos amigos de Ezequiel, sobrevivente do episódio, foi assassinado cinco anos depois, em condições não esclarecidas. A família não quis investigar o crime.

Herdeiro

Na época do seu assassinato, Ezequiel namorava Jessica Martín. Quando foram reconhecer o corpo, a garota contou que estava grávida de três meses. Pude ver os olhinhos brilhantes de David, o filho de Ezequiel e Jessica, mais de uma década depois da morte do pai. Ele estava no ato. Quando falavam de Ezequiel e de toda a luta travada, David se emocionava, ao lado da mãe, mas também se mantinha firme. Havia uma linha de orgulho estampado em sua feição.

* Larissa Valença é estudante de jornalismo e atriz de um coletivo independente. Escreve sobre arte, política, direitos humanos e cultura na América Latina, acredita na soberania desse território. Conheceu a história de Ezequiel Demonty em julho de 2014 e escreveu esse texto sobre sua vivência especialmente para o blog Rede LatinAmérica.

  • Thiago

    Parabéns, belíssimo texto, em meio a tanta violência, há uma esperança. Não desista, Larissa.

    • Hortencia Santos

      Parabéns Larissa Valença! Linda matéria! Eu admiro muito o trabalho do seu pai e te desejo muito sucesso!!!

  • malu

    Execente texto a autora respeitosamente transita entre a poesia e o fato real sem dar a conotação pesada e tristonha que esse tipo de reportagem costuma imprimir.

  • FATIMA DELL OSSO

    Parabéns Larissa,,Não conhecia esta história e é de uma profunda sensibilidade..Seu talento para o Jornalismo é inegável…Aguardo mais matérias!!! Beijosss

  • Elaine

    Larissa,
    Você tem um talento maravilhoso! Que você continue a nos brindar com seus textos lindos! Te desejo uma carreira de enorme sucesso!!

  • Silvia Pasini

    Quanta sensibilidade Larissa. Ler sua matéria foi uma viagem e tanto. Parabéns! Está na carreira certa.