Villa 1.11.14: um espaço de construção coletiva

*Por Larissa Valença

Na semana passada os convidei a entrar na Villa 1.11.14, uma das mais conhecidas favelas de Buenos Aires. Para se ter ideia da proporção, por lá vivem 40 mil pessoas, segundo dados do diagnóstico institucional. Vamos continuar a percorrer a villa, para conhecer outros contextos. Por mais que a violência policial seja uma constante, a população local luta para combater os estereótipos arraigados e, sobretudo, as arbitrariedades. Além disso, nessa favela argentina há um cenário amplo, em que cada um atua com autonomia.

Como uma locomotiva, assim, as partes se encaixam e a intervenção social nasce. Para enfrentar os problemas socioeconômicos os membros da comunidade e organizações de apoio trabalham de forma articulada. Há instituições de cunho educacional, religioso, as quais não são originadas por moradores e sim por gente que compartilha das mesmas concepções: ajudar quem está em situação de exclusão.

Mural na entrada de uma escola, na Villa 1.11.14, em Buenos Aires, com as consignas que mantêm vivas as esperanças dos seus moradores. (Foto: Larissa Valença)

Mural na entrada de uma escola, na Villa 1.11.14, em Buenos Aires, com as consignas que mantêm vivas as esperanças dos seus moradores. (Foto: Larissa Valença)

Na década de 90, um grupo de professores/militantes ocuparam uma edificação abandonada na villa, mesmo sem ter muitos recursos, começaram a moldar um espaço destinado à educação. A EMEM nº3 funciona desde 1996 e hoje é a única de grau médio do bairro. Antes disso, a região de Bajo Flores sobrevivia sem ter uma escola aberta à população. Juan Manuel Mauro, coordenador e militante da escola, tinha o pai e o tio nesse grupo, inclusive o colégio público leva o nome do tio Carlos Geniso, que fora decisivo para a construção desse ambiente democrático e colorido.

Esse local de ensino foi resistindo. Em 2001, a Argentina passava por uma forte crise econômica, na qual os índices de desempregos chegaram a mais de 20% e mais de 55% da população submergiu-se na miserabilidade. A realidade alarmante era a falta de comida nas mesas, primeiro grande obstáculo da escola. Por isso, a construção de um refeitório foi sua primeira prioridade. As necessidades falavam por si só.

Em tempos de crise, o lugar abasteceria não somente os alunos. A grande mesa foi feita para que possa compartilhar, sendo toda a comunidade contemplada. Os alunos trouxeram as famílias. O refeitório que cabia 1.500 crianças ficava dividido por turnos, se enchendo de vozes e rostos peculiares.

A comunidade

As andanças não se restringiram a se deparar tão somente com o trabalho desenvolvido na escola. Ao sair, passei por um posto da polícia, e fui adentrando ruas de barro, com casas de madeira e tijolos, sem acabamentos. Um morador nos acompanhou, com sua maneira tímida.

Em meio a um jogo de futebol e casas coloridas que cercavam a quadra, veio a discussão sobre um entorpecente que assola as villas: pasta base “el paco”. Feito com resíduos de cocaína e misturado com outros produtos químicos, como bicarbonato de sódio, querosene. Considerado o pior, pois é capaz de matar em pouco tempo.

Dessa vez, mais um projeto social é desenvolvido, agora, pela igreja Católica. Os padres, “curas villeros” como são chamados, integrantes da corrente MSTMU (Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo), iniciaram sua trajetória nas décadas de 60 e 70, largavam a igreja formal, e vinham aos bairros marginais ajudar as famílias na construção de lares.

Perto da igreja “Mãe do Povo”, há o local onde os padres pertencentes a essa vertente abrigam, dão de comer e desenvolvem atividades com as crianças usuárias de “el paco”. O uso desse entorpecente aumentou a partir de meados dos Anos 90.

Padre Mugica, um dos precursores dessa frente de resistência, não chegou a ver a ditadura militar e todos os crimes que lesam contra a humanidade, pois fora assassinado em 1974, pela chamada Aliança Anticomunista Argentina, grupo paramilitar de ultradireita.

Já Padre Richardelli, foi defensor da dignidade dessa população de vulnerabilidade social, e protetor dos perseguidos na ditadura, por isso sofreu atentados e levou tiros. Ele também ia de encontro com os que lucram com a pobreza. O sacerdote chegou a essa villa em 1964 e foi quem fundou a igreja “Mãe do Povo”, em 1975, onde foi pároco por mais de 30 anos. Ao conviver e tornar-se amigo de Mugica, Richardelli atribui vigor à luta pela justiça e igualdade em solo de opressão. Ele personificou-se como a alma da Villa 1.11.14.

Ambos os padres foram combatidos pelas elites. Entretanto, suas ideias não foram enterradas, e sim ecoaram.

Garotos jogam futebol cercados pelas pequenas, coloridas e precárias casas. Compartilham com os vizinhos, o sonho de um futuro com mais matizes para a Villa 1.11.14. (Foto: Larissa Valença)

Garotos jogam futebol cercados pelas pequenas, coloridas e precárias casas. Compartilham com os vizinhos, o sonho de um futuro com mais matizes para a Villa 1.11.14. (Foto: Larissa Valença)

Na favela argentina há centros de assistência estatal, como programas de acesso à justiça, que se realizam ao redor da paróquia. Quando passei por lá, havia uma mulher com um bebê nos braços e outro que brincava girando e girando no seu mundo. A mãe sorriu e trocou algumas palavras comigo me contando com orgulho o nome de seus descendentes. Eles tinham traços dos povos aborígenes, que tanto lutaram e permanecem na linha de frente, resistindo.

Juan Manuel Mauro me conduzia para dentro da Villa 1.11.14, por uma rua com asfalto, onde muitos comércios compunham a paisagem. “Aqui vive grande parte da comunidade boliviana, perto do narcotráfico”, sussurrou.

Caminhamos em silêncio, que foi quebrado quando ele saudou um casal de alunos que estava no início de um beco, nos apresentou, e estalos de beijos romperam de vez aquele cenário emudecido.

Esses mesmos alunos nos acompanharam pelas entranhas da villa miseria, seguimos para dentro de ruas estreitas, olhares misteriosos nos cumprimentavam: o de um gato solitário na janela. Após essa andança nos despedimos e seguimos viagem.

Ao passar em frente à escola outro grafite convida meu olhar: “Dia 08 de março – data contra a violência institucional”, em alusão as vítimas da violência de Estado, como Ezequiel Demonty, morto pela polícia, e Julio López, militante desaparecido.

López foi detido ilegalmente e levado a centros clandestinos de tortura durante o Estado de Sítio, ficou sequestrado de 1976 a 1979. Com a redemocratização, foi testemunha ímpar no julgamento de militares, que instituíam a tortura como prática corriqueira, isso culminou na prisão perpetua de Miguel Etchecolatz, encarregado de um dos centros de detenções clandestinas. Após o depoimento dado em 2006, o militante desapareceu e nunca mais foi encontrado. Tipo de impunidade que ainda está embalada no berço democrático.

Ao percorrer o colégio público me lembro de dois depoimentos, do vigia Daniel e do aluno Jonathan:

– Todos são comprometidos aqui cada um com a sua militância – me contava Daniel, com os olhos sorridentes.

– Esse é um ambiente diferente. Cada um faz o que pode aqui – coloca Jonathan, com falar agitado.

“Todos podemos”, diz mais um dos grafites que compõe uma parede no interior da EMEM nº3, divisora de duas áreas de recreação: o parquinho e a quadra.

Esse é um ambiente destinado à comunidade, e isso foi se fortificando. No início, as mães que tinham filhos os traziam para assistir as aulas, já que não tinham onde deixá-los. A prole não era um impedimento para o estudo. Hoje, onde era um terreno baldio, floreou o jardim da infância, com pequeninos de toda a comunidade que ficam na escola enquanto as mães trabalham ou estudam. Ao entrar e ver aquelas crianças que batiam nos meus joelhos, minha voz emudeceu e meu olhar embaralhou, chegara um oceano de lágrimas. As crianças corriam e me convidavam com livros na mão para mergulhar no seu universo encantado. Na villa, hoje, se vive o amanhecer de um novo sol.

* Larissa Valença é estudante de jornalismo e atriz de um coletivo independente. Escreve sobre arte, política, direitos humanos e cultura na América Latina, acredita na soberania desse território. Visitou a Villa 1.11.14 em julho de 2014 e escreveu esse texto sobre sua vivência especialmente para o blog Rede LatinAmérica.