Volta ao mundo (latino)

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Por Alex Hercog*

De pochete ou de mochila: uma viagem pela América Latina em plena Copa do Mundo

“O que fazem aqui, que não estão no Brasil acompanhando o Mundial?”, nos perguntam todos os hermanos. “Viajando pela América do Sul”, respondo com o meu portunhol.

Eu, Alex Hercog, nascido e mal-criado na Bahia, abdiquei de emprego, recusei propostas e fui despejado para fazer essa viagem. Junto com o meu amigo Ramon Assis, partimos para o Uruguai no dia 9 de junho de 2014, como objetivo de chegarmos, pelo menos, até a Colômbia.

No bolso, pouco dinheiro. Na mochila, a expectativa de encontrar lugares e pessoas que nos façam ter experiências enriquecedoras e nos ajudem a desvendar um pouco essa tal América Latina. Passaremos por diversas cidades e subiremos as veias latino-americanas até onde for possível.

Durante a viagem, também aproveitaremos para observar como os nossos vizinhos acompanham a Copa e qual o olhar deles sobre o nosso país. Para cada país visitado, prepararemos um relato, que nada mais será que a nossa interpretação a partir do pequeno recorte de tempo e espaço. Não temos a pretensão de criar certezas sobre os países, mas de relatar nossas experiências e olhares.

Quem quiser acompanhar nosso diário de bordo, pode curtir a página no Facebook: De pochete ou de mochila.

Nosso trajeto previsto: Punta del Este, Montevideo, Colonia do Sacramento (Uruguai), Buenos Aires, Rosario, Cordoba, Mendoza (Argentina), Santiago, Viña del Mar, Valparaiso, La Serena, Antofagasta, San Pedro de Atacama, Valle de la Luna (Chile), Salar de Uyuni, Santa Cruz de la Sierra, Vallegrande, La Higuera, La Paz, Copacabana, Isla del Sol (Bolivia), Puno, Cusco, Machu Pichu, Lima, Teujillo, Ica, Piura (Peru), Guayaquil, Baños, Latacunga, Quilotoa, Quito, Tulcán (Equador), Ipiales, Cali, Bogotá e Cartagena (Colômbia).

Quem quiser ajudar, sobretudo oferecendo hospedagem, basta entra em contato pelo Facebook, pois a ajuda será muito bem-vinda.

Hasta luego. Nuestro norte es el sur.

De pocheteou de mochila no Uruguai. Entre 10 e 14 de junho de 2014, por Punta del Este, Montevideo e Colonia del Sacramento

uruguaiOs uruguaios já estão em campanha para a eleição, marcada para outubro. Mas a discrição é a principal marca. Diferente do que existe no Brasil, praticamente não há poluição visual, nem sujeira nas ruas, nem carro de som. A campanha por aqui é muito menos apelativa.

O favorito nas pesquisas é Tabaré Vázquez, que já foi presidente e pertence ao mesmo grupo político de Pepe Mujica. Para os uruguaios, o atual presidente parece não ter a mesma áurea que faz dele um popstar no Brasil. E também está longe de ser unanimidade.

Ao que parece, ele é apenas um presidente que tem tido o desafio de lidar com problemas “comuns”, como a pressão dos servidores públicos por melhores salários e o controle econômico em um país cujo custo de vida é elevado — “em outubro, irei morar com meu irmão em uma fazenda em Minas Gerais, porque aqui se paga muito caro para comer”, confidencia um senhor que cuida da limpeza do banheiro da rodoviária de Montevideo.

Já os projetos polêmicos liderados por Mujica dividem opiniões e votos. Uma camelô peruana, que vive no Uruguai há 13 anos, diz não ser muito simpática ao presidente por conta de algumas leis. “Maconha, aborto e casamento homossexual”, contesta. Próximo de sua banca, há uma praça arborizada onde namorados, famílias e amigos caminham ou descansam. Alguns jovens fumam maconha. Um deles fala do uso de forma bastante natural, afirmando que todos, inclusive policiais, pobres, ricos ou idosos também fumam marijuana. “Aqui é democrático”, sentencia.

Um brasileiro que vive no Uruguai há três meses explica que a lei veio para reparar uma incongruência: podia-se fumar, mas nãose podia comprar. Agora, o Estado assumiu o papel de vendedor. Em breve, a maconha também será vendida em farmácias. Mas não é fácil para os estrangeiros nem para os moradores locais comprar. Muito menos se veem pessoas fumando em qualquer canto.

Já quando o assunto é futebol, parece que no Uruguai nãovai ter Copa. Nada de bandeiras nas fachadas dos apartamentos, nem de decoração pela cidade. Os uruguaios parecem não confiar no sucesso de sua seleção. “Os melhores jogadores já estão velhos”, lamenta uma marisqueira em Punta del Este. Para ela, conseguir passar da primeira fase já significaria uma boa campanha.

E assim segue o pacato Uruguai, na mais plena calmaria. Seu povo parece inabalável. Nada parece tirar sua tranquilidade. Nem maconha, nem eleições, nem Copa do Mundo.

De pochete ou de mochila na Argentina. Entre 14 e 19 de junho de 2014, por Buenos Aires, Rosario, Cordoba e Villa Belgrano

argentinaSó se fala em Copa na Argentina. Para a estréia contra a Bosnia, milhares de pessoas se reuniram em diversas praças que exibiam o jogo. Até cobrança de lateral era comemorada. Ao final, vitória magra de 2×1, mas suficiente para aumentar o otimismo dos torcedores.

Nas ruas, centenas de bandeiras, enfeites e um gigantesco outdoor de Messi próximo ao Obelisco colorem as ruas de Buenos Aires de azul e branco. Na televisão, só se fala da seleção na maioria dos canais, inclusive na TV Pública.

Em uma banca de revista em Cordoba, o jornal espanhol com circulação argentina “Barcelona” estampa em sua capa a bandeira do Brasil decorada com uma banana e questiona se o Mundial será capaz de unir os “criollos” argentinos aos “macacos” e “amargos” brasileiros.

Mas a Copa não é unanimidade. Próximo à Bombonera (estádio do Boca Jr.), uma vendedora questiona os gastos com o evento e afirma que nenhum país da América do Sul está preparado para receber o Mundial. Para ela, o dinheiro arrecadado acaba circulando entre os que já possuem muito dinheiro. Diz que vai torcer para a Argentina, mas não para os jogadores, que seriam todos mercenários e pouco preocupados com o desempenho da seleção.

Em Rosario, um pescador diz gostar muito de futebol, mas se incomoda por só se falar nisso no país. “Durante um mês de Mundial, os políticos podem fazer o que quiserem, que ninguém se importa”, comenta. Ele aponta o dedo em direção a um grande prédio que está sendo construído, do qual metade pertence a Messi. “Para lavar dinheiro”, acusa. Com a mesma faca com que trata o peixe, ele simula o que faria com a presidente Cristina.

Em Buenos Aires, ao ser perguntado sobre a presidente, um cambista solta um sonoro palavrão. Já um estudante brasileiro diz admirá-la, apesar de não gostar do culto à sua personalidade. Para ele, os mais ricos desaprovam o governo, enquanto os mais pobres são favoráveis. Pelas ruas, muitas pichações de apoio a Cristina e poucas a atacando. Já as pichações contra a Monsanto batem recorde, sobretudo em Rosário. Lei de aborto também é pauta nos muros argentinos.

Em relação à Ley dos Medios, recentemente ratificada pela Justiça, suas conseqüências ainda não são muito perceptíveis. Um estudante de Direito afirma que a lei não resultou em censura, nem fechou empresas e agências de Comunicação, como alardeava a oposição. A TV Pública é muito bem estruturada, com uma programação diversa, que exibe tanto os jogos do campeonato nacional de futebol quanto filmes clássicos.

Nos últimos dias, no entanto, os noticiários passaram a dar destaque a um assunto delicado: os “fundos abutres”. Um imbróglio envolvendo o Estado argentino e acionistas e empresas dos Estados Unidos que compraram títulos de dívida pública por preços muito baixos durante a crise do país no início do século e, agora que os títulos se supervalorizaram, querem sacá-los. No entanto, o país anunciou que não irá pagá-los, contrariando decisão judicial da corte estadunidense.

Todos os partidos concordam com a impossibilidade do pagamento, mas apresentam soluções distintas. Os de direita defendem um pagamento parcial ou troca por novos títulos. Os partidos mais ao centro propõem a revisão da dívida, enquanto os de esquerda são a favor de um plebiscito para decidir pelo pagamento ou não da dívida.

Certamente, o caso dos títulos abutres vai ocupar a pauta da sociedade argentina. Só não se sabe se terá o mesmo espaço e interesse que o Mundial.

Para ver os próximos relatos de viagem, acesse a página De pochete ou de mochila

Alex Hercog, 27 anos, baiano. Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Coordenador de Comunicação da Associação Vida Brasil. Autor do blog www.366filmesdeaz.blogspot.com.br, possui pesquisas e publicações na área de audiovisual. Além do cinema, tem interesse em viagem, na política latino-americana e em projetos ligados à democratização da comunicação.